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Proteção de cultivos no Brasil ganha reforço inovador com tecnologia RNAi

Uma técnica que promete ajudar na transformação do manejo de pragas e doenças agrícolas. Baseada em moléculas de RNA de interferência (RNAi), o silenciamento gênico oferece uma alternativa de precisão, biodegradável e livre de resíduos aos pesticidas convencionais. Pesquisas realizadas por universidades e centros de inovação, somadas à chegada de um fungicida pioneiro da GreenLight Biosciences, colocam o Brasil entre os protagonistas globais dessa revolução verde.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o Brasil consome, em média, 719,5 mil toneladas de agrotóxicos por ano, número que reflete a dependência de substâncias químicas na manutenção da produtividade. Essa realidade impulsiona o interesse por soluções mais seguras e sustentáveis, como o RNAi — mecanismo natural de defesa celular que “desliga” genes específicos de pragas, inibindo a produção de proteínas essenciais para a sobrevivência delas. 

O princípio foi descrito há pouco mais de duas décadas, mas ganhou força recentemente, como base para o desenvolvimento de biopesticidas de nova geração. Diferente dos defensivos químicos, que afetam processos metabólicos amplos e, muitas vezes, organismos não-alvo, como anfíbios, o RNAi atua com alta especificidade genética, reduzindo impactos ambientais e riscos à saúde humana.

No Brasil, pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro) — sediado na Unesp de Sorocaba (SP) e que reúne cientistas de várias partes do País — estão entre os responsáveis por impulsionar o uso da tecnologia. Em artigo recente, os professores Antonio Figueira (USP) e Henrique Marques de Souza (Unicamp e HMS Agroscience) destacam o potencial do RNAi como ferramenta central para uma agricultura sustentável.

“O RNAi, enquanto biopesticida feito de RNA de dupla fita, apresenta baixa toxicidade, rápida degradação natural e um processo de registro regulatório mais ágil e menos custoso”, explicam. “Além disso, pode contribuir para reduzir o uso de pesticidas sintéticos e até beneficiar sistemas de produção orgânica.”

Os cientistas destacam que o RNAi já demonstrou eficácia em abordagens como o silenciamento gênico induzido pelo hospedeiro (HIGS) — usado em plantas de milho transgênicas para combater a lagarta-da-raiz — e o silenciamento gênico induzido por pulverização (SIGS), estratégia não transgênica que aplica moléculas de RNA diretamente sobre as folhas. Essa última tem mostrado resultados promissores em experimentos com vírus do endurecimento dos frutos do maracujazeiro, conduzidos por pesquisadores da Unesp, que buscam viabilizar sistemas de entrega baseados em nanopartículas para proteger e veicular o RNA em campo.

O grupo do INCT estuda também nanocarregadores biocompatíveis capazes de proteger e liberar as moléculas de RNA em condições de campo — uma das chaves para tornar a aplicação via pulverização mais eficiente. Segundo os pesquisadores, essa etapa é essencial para garantir estabilidade e eficácia, e coloca o Brasil na vanguarda da pesquisa aplicada em biotecnologia agrícola. 

Primeiro fungicida

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Andrey Zarur, CEO da GreenLight Biosciences: inovação abre uma nova fronteira para o controle de patógenos agrícolas. Foto: GreenLight Biosciences/Divulgação

Esses avanços científicos ajudam a pavimentar o caminho para a chegada dos primeiros produtos comerciais — e é nesse ponto que entra a GreenLight Biosciences. A empresa, de origem norte-americana, submeteu recentemente ao registro o primeiro fungicida do Brasil à base de RNA, desenvolvido para o controle do oídio da videira (Erysiphe necator), uma das doenças mais recorrentes na viticultura.

De acordo com o CEO da companhia, Andrey Zarur, o produto é um divisor de águas para a proteção de cultivos. “É a primeira vez que uma solução de RNA foi concebida para atingir um patógeno fúngico em escala comercial e submetida à aprovação regulatória. As doenças fúngicas causam cerca de 40% das perdas de safras globais, e essa inovação abre uma nova fronteira para o manejo sustentável de doenças”, afirma.

O processo teve início com a seleção, via bioinformática, de genes essenciais do fungo E. necator, desenhando moléculas de RNA de dupla fita com precisão para interagir exclusivamente com ele. Essa abordagem, chamada de “segurança por design”, evita sobreposição com organismos não-alvo, assegurando a integridade de polinizadores, inimigos naturais e outros elementos da biodiversidade.

A eficácia foi comprovada em campo com doses extremamente baixas — de 16 a 20 gramas por hectare — e desempenho comparável ou superior aos fungicidas tradicionais. O custo total de desenvolvimento ficou em torno de US$ 30 milhões, cerca de dez vezes menor que um produto químico convencional.

“Nosso processo é mais rápido e econômico porque a tecnologia não gera resíduos, não é Organismo Geneticamente Modificado (OGM) e não exige estudos de Limite Máximo de Resíduo (LMR). Isso reduz custos regulatórios e acelera a aprovação, tornando o produto mais acessível para produtores de todos os portes”, destaca o executivo.

O RNAi também traz benefícios diretos para o manejo da resistência de patógenos, já que seu modo de ação é totalmente distinto dos compostos químicos. Pode ser utilizado em rotação ou em mistura de tanque, prolongando a vida útil dos defensivos tradicionais e reduzindo a pressão seletiva sobre populações de fungos.

Zarur afirma que a segurança é outro pilar da inovação. “O RNA é uma molécula natural e biodegradável, que se decompõe rapidamente e serve de alimento para microrganismos. Não deixa resíduos, não gera metabólitos tóxicos e não altera o DNA”, explica. 

O fungicida está sendo avaliado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Ibama, em um processo que, segundo a empresa, tem sido marcado por diálogo técnico e colaboração entre os órgãos. “As autoridades brasileiras têm mostrado uma postura moderna e integrada, alinhada ao ritmo da inovação. O País pode se tornar referência global em regulação de biotecnologias seguras”, afirma o CEO.

Viticultura

oídio
Oídio é uma das doenças mais graves da viticultura. Foto: Adobe Stock

A escolha da videira como cultura inicial não foi aleatória. Segundo a Embrapa, o Brasil possui cerca de 75,5 mil hectares plantados e produz 1,68 milhão de toneladas de uvas por safra, metade destinada ao consumo in natura e outra metade ao processamento em vinhos, sucos e espumantes. O Vale do São Francisco, entre Pernambuco e Bahia, responde por cerca de 50% da produção nacional, com colheitas contínuas graças à irrigação.

O oídio, alvo do novo produto, é uma das doenças mais graves da cultura, exigindo até 12 pulverizações anuais de fungicidas convencionais. A solução de RNAi pode reduzir esse número de aplicações e o impacto ambiental. “Nosso objetivo é oferecer aos viticultores uma ferramenta moderna e segura, que se integre facilmente às práticas agrícolas já consolidadas”, diz Zarur.

Além do fungicida, a GreenLight planeja lançar um produto para controle de ácaros, da superfamília Tetranychoidea, e, nos próximos cinco anos, submeter ao registro pelo menos cinco novos produtos à base de RNA no País. No exterior, a empresa já comercializa o Calantha, para o besouro-da-batata do Colorado, e o Norroa, voltado ao ácaro Varroa, que afeta colmeias de abelhas.

“Acreditamos que o RNA vai transformar a forma como o mundo protege suas lavouras”, resume Zarur. “É uma tecnologia de precisão, sustentável e acessível, que une produtividade e preservação ambiental.”

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