Há muitos anos escrevo esta coluna no último domingo do mês, e não é a primeira vez que meu dia coincide com o segundo turno das eleições presidenciais.
Fui buscar o que escrevi nesses domingos de escolhas difíceis em 2014, 2018 e 2022 para ver se consigo extrair lições para 2026. A coisa foi ficando mais difícil.
Em 2014 (era Aécio contra Dilma) escrevi animado, pensando em (na peça de Shakespeare) Henrique V combatendo adversários em maior número, ou seja, vencer uma batalha perdida. A eleição foi no dia 26 de outubro, um sinal dos céus, era o dia de Santo Evaristo. O dia de São Crespim, o dia da vitória em Agincourt (na peça), tinha sido no dia anterior, dia 25/10.
Tenho p’ra mim que foi por isso que Dilma venceu, o problema foi com o calendário, o que mais poderia ser?

Metade do País estará de cabeça inchada, mas todos vão se levantar para trabalhar Foto: Hélvio Romero/Estadão
Em 2018 (Jair contra Haddad) tudo é diferente, pois é quando se estabelece a polarização como hoje a conhecemos. Votei declaradamente em branco e expliquei que “meu voto é utilitário e egoísta, como o próprio homo economicus que todos sabemos ser quando vamos ao supermercado”.
Jair Bolsonaro ganhou com folga, e meu artigo tentou um caminho difícil: o que era preciso fazer na economia para dar certo. Achava então, e ainda acho, que a vitória de um candidato que não é a minha primeira escolha, nem a segunda, não precisa ser o fim do mundo.
Em 2022 eu votei novamente em branco. O artigo do dia 30/10/2026 chamava-se a “terceira metade”, uma discreta alusão & homenagem à Terceira Margem do Rio, o conto mais famoso de Guimarães Rosa. Quem falou que a terceira margem não existe?
Bem, tudo isso é muito útil para 2026.
Vale notar, para começar, que o Brasil não vai acabar se o “outro lado” ganhar, inclusive porque ganhou em duas das últimas três. Que democracia é essa que o outro lado não pode ganhar?
Claro que parte da força da dita democracia tem a ver com o vencedor saber ganhar e especialmente o perdedor saber perder, o que nem sempre acontece certinho.
Pois desta vez é preciso que a segunda-feira seja tranquila. Metade do País estará de cabeça inchada, mas todos vão se levantar para trabalhar. A vida seguirá, com sua inefável rotina se convertendo em importante exercício de tolerância.
Precisamos de uma segunda-feira tranquila pois a pauta econômica é muito pesada e os candidatos andaram se escondendo do assunto, pecado muito mais grave para o incumbente, que está com a caneta na mão há vários anos e só fez agravar o problema.