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Por que o prazo de permanência dos conselheiros nos colegiados de empresas tem caído

O privilégio silencioso de quem tem poder dentro das empresas

Líderes que se recusam a adaptar seu estilo podem transferir ao time o custo invisível de tentar decifrá-los, comprometendo talentos, resultados e sucessão.

As mudanças na economia brasileira, marcadas pelo avanço da inteligência artificial e pela entrada de novas gerações no mercado de trabalho, como a geração Z, além dos tradicionais altos e baixos da conjuntura, têm provocado transformações nos conselhos de administração e nos conselhos consultivos de empresas.

Nos últimos tempos, a renovação dos colegiados está cada vez mais acelerada e as competências dos participantes, mais diversas. Além disso, os conselhos passaram a acumular novas funções.

Se antes estavam focados em fiscalizar a condução da administração das companhias numa posição hierárquica superior, agora arregaçaram as mangas e se encarregam também de pensar em estratégias de longo prazo para as empresas.

Esse movimento foi constatado pela Soul HR Consulting, empresa especializada em recrutamento e seleção de executivos, inclusive para conselhos, e confirmado por conselheiros com muitos anos de atuação em colegiados, ouvidos pelo Estadão.

Um sinal da maior renovação aparece na redução do prazo de permanência dos conselheiros na função. Nos últimos três anos, o tempo médio tem girado em torno de cinco anos. Esse prazo já foi bem maior no passado: oscilava entre seis e dez anos, segundo Renata Filippi Lindquist, sócia e fundadora da consultoria.

“No passado, um conselheiro ficava dez, quinze anos (no cargo), hoje a gente vê isso muito menos”, diz a consultora. Inclusive as empresas têm se preocupado em fazer uma avaliação anual dos conselhos, o que antes não acontecia, acrescenta.

O ritmo mais acelerado de renovação dos conselhos também aparece nas demandas recebidas pela consultoria. Em 2025, os mandatos recebidos para recrutar conselheiros cresceram 50% em relação a 2024 e, no primeiro semestre deste ano, a expansão foi próxima de 25%.

Dados consolidados do mercado mostram que a movimentação de conselheiros aumentou cerca de 15% no último ano. A maior parte do acréscimo na demanda não ocorreu por conta da criação de novos colegiados, mas sim pela substituição de profissionais de conselhos em funcionamento.

Nos últimos três anos, entre 60% e 65% dos novos conselheiros que a consultoria tem recrutado no mercado são para substituir membros do colegiado, não para aumentar o número de cadeiras.

Otto Von Sothen, ex-CEO da Tigre e conselheiro de várias empresas, notou aumento na renovação dos conselhos Foto: Ana Von Sothen/Divulgação

Com quase 40 anos exercendo funções executivas, dos quais 23 deles em cargos de CEO – o último no comando do Grupo Tigre, onde ficou 11 anos –, Otto Von Sothen, hoje conselheiro de quatro companhias, também vê uma renovação mais acelerada nos conselhos.

Na sua avaliação, um dos fatores responsáveis por essa mudança nos quadros de conselheiros é uma maior cobrança desses profissionais para agregar valor à gestão.

Ele lembra que, no passado, o foco preponderante do trabalho dos colegiados era cobrar resultados da administração e garantir uma governança adequada. Os conselhos gastavam muito tempo olhando para os resultados do passado e não tinham uma estratégia para o futuro.

Por conta da transformação do ambiente de negócios, do impacto do uso da inteligência artificial, por exemplo, foram acrescentadas outras demandas a esses profissionais. Eles passaram a ter de se atualizar sobre esses novos temas e trazê-los para as agendas do dia a dia.

“A maioria dos conselheiros é pouco letrada nisso. Eu diria que esse é um fator que tem gerado essa aceleração na transformação de conselhos, além, evidentemente, de práticas ruins que mostram que muitos dos conselhos não estavam sendo efetivos e eficazes na sua atuação.”

Marcelo Doll, ex-CEO da Drogaria Pacheco São Paulo (DPSP) e atualmente conselheiro de várias empresas, diz que ambiente de negócios está mudando rapidamente Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Há quatro décadas atuando no ambiente corporativo e mais de dez anos participando de diversos conselhos, Marcelo Doll, ex-CEO da Drogaria Pacheco São Paulo (DPSP), é outro profissional que notou mudanças nos colegiados de empresas.

Segundo Doll, por mais que ainda seja necessário o papel de fiscalização exercido pelo conselho, o colegiado vem assumindo uma agenda de geração de valor do negócio para as empresas.

“O ambiente de negócio está mudando com muito mais velocidade do que no passado e isso requer uma capacidade de adaptação muito rápida das empresas”, diz.

O conselheiro aponta quatro novos temas que passaram a fazer parte da pauta dos conselhos para agregar valor às companhias. Um deles é a tecnologia, que passou a ser um assunto transversal a diferentes áreas. “Não conheço nenhum conselho hoje que não coloque todos os meses na sua agenda um assunto de tecnologia.”

O tema recursos humanos, isto é, como atrair e reter as novas gerações nos quadros de funcionários da empresa, também virou pauta dos conselhos, ao lado da transformação dos mercados e das mudanças do comportamento do consumidor.

Até pouco tempo atrás, observa, as empresas conheciam seus concorrentes com detalhes. “Hoje o seu concorrente pode estar nascendo e você não percebeu. Existe uma interligação muito grande de mercados competitivos.”

Na avaliação de Doll, o papel de fiscalização desempenhado pelos conselhos jamais irá perder importância na rotina dos colegiados. Mas ele pondera que a atuação dos conselhos na geração de valor para as empresas vem ganhando espaço.

A busca pela diversidade de competências

O processo de renovação dos conselhos revela, segundo Renata, da Soul, que as empresas passaram a se preocupar com a diversidade da competência dos membros do colegiado.

A velha fórmula de compor os conselhos só com pessoas conhecidas do presidente ou de confiança dos acionistas da empresa está mudando e a tendência é aumentar a diversidade. “As empresas estão acordando para essa diversidade das coisas, que, no mundo dos negócios, até pouco tempo atrás falava-se muito pouco.”

O objetivo dessa transformação é fazer com que o conselho traga mais valor à empresa de uma maneira geral, pensando nas transformações que o negócio exige, inclusive prevendo riscos e incorporando inovações de uma maneira mais estruturada para as companhias.

Empresas dos setores de varejo, saúde e agronegócios, por exemplo, são as que estão fazendo uma renovação mais estruturada dos seus conselhos de acordo com esse novo perfil, aponta a consultoria.

São companhias com faturamento superior a R$ 200 milhões e que já têm seus conselhos, sejam consultivos ou conselhos de administração, montados há vários anos e que seguem práticas mais estruturadas de governança. “São essas empresas que estão fazendo essa rota de renovação consciente.”

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