As ações do Santander Brasil caíram mais de 4% na B3 no começo da tarde desta quarta-feira, 28, após o balanço do terceiro trimestre do banco sinalizar uma recuperação que promete ser longa e acidentada. O cenário econômico incerto força a instituição a abandonar linhas de crédito mais lucrativas, em um movimento que diminui os lucros e impacta as receitas. Nesse início de gestão do CEO Gilson Finkelsztain, a ordem é seguir firme na estratégia para blindar o balanço de um futuro volátil.
Como evidência do cenário, o Santander reportou um lucro líquido de R$ 2,9 bilhões no terceiro trimestre, um tombo de 28% em relação a igual período do ano passado. O resultado produziu um retorno sobre o patrimônio 5,6 pontos porcentuais mais baixo, em 11,9%, na contramão da meta de elevar o indicador a 20% até 2028, estabelecida pela matriz espanhola. Em Madri, a ação da matriz recuava 5%, influenciada em parte pelo Brasil.
“São números obviamente abaixo do patamar de rentabilidade que buscamos”, reconheceu Finkelsztain, em teleconferência com analistas. “Ao mesmo tempo, precisam ser considerados o cenário macroeconômico que estamos passando e o processo de rebalanceamento do banco”, argumentou.

Resultados do Santander são pressionados pelo contínuo avanço da inadimplência Foto: Santander/Divulgação
Esse reequilíbrio de forças já havia sido sinalizado nos trimestres anteriores, mas se acelerou com a chegada do novo presidente. Na prática, significou menos apetite para avançar na pessoa física, que ficou mais concentrada em veículos, crédito imobiliário e cartão de crédito para a alta renda. Já a carteira de pessoa jurídica foi impulsionada pelas maiores corporações e pequenas e médias empresas (PMEs) com garantia de programas do governo.
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Finkelsztain ressaltou que o banco já avançou em direção a uma carteira com clientes de melhor qualidade e de uma relação mais equilibrada entre risco e retorno. “Esse movimento permanece como parte central de nossa estratégia”, disse ele, prometendo uma recuperação “gradual” da rentabilidade.
Como essas operações têm spreads estruturalmente menores, a margem financeira com clientes amargou uma queda de 4,2% em 12 meses, a R$ 15,85 bilhões no trimestre. A margem com mercado também voltou a piorar, ficando negativa em R$ 895 milhões, à medida que os indicadores de inflação mais baixos no período pressionam os títulos atrelados aos índices. “O contexto macroeconômico e o rebalanceamento da carteira ainda trarão impactos de curto prazo na margem”, projetou o CFO do Santander Brasil, Carlos Muñiz.
Mais inadimplência
Os resultados são pressionados ainda pelo contínuo avanço da inadimplência, que subiu 0,6 ponto porcentual no comparativo anual, a 3,4%. A alta foi puxada pela pessoa física, diante da deterioração do agronegócio e da baixa renda. Por outro lado, indicadores antecedentes apontam para uma normalização da curva: os atrasos de 15 a 90 dias ficaram praticamente estáveis em 3,2%, com alívio tanto em empresas quanto em consumidores.
Também há sinais de estabilização no colchão financeiro contra calotes. As despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD) subiram 14,4%, a R$ 7,46 bilhões, mas com uma ressalva: houve uma contribuição de cerca de R$ 500 milhões relacionada a empresas específicas, cujos nomes não foram revelados. “Excluindo esses efeitos, teríamos uma estabilização nas despesas recorrentes com provisões”, ressaltou Muñiz.
Um outro contraponto positivo é a agenda de disciplina nos custos, com queda nas despesas administrativas. O Santander acelerou o fechamento de agências e reduziu o número de funcionários em quase 6 mil em 12 meses, para 45,8 mil.
Cautela continua
Ainda assim, o tom é de cautela para os próximos passos. Há particular preocupação com o comportamento do agronegócio e cartões de crédito de baixa e média renda. Apesar de todo o trabalho para a redução de risco, uma recuperação significativa só deve vir mesmo quando os juros caírem consistentemente — uma tarefa que parece ter ficado mais difícil com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que até agora se recusou a promover um ajuste das contas públicas.
As incertezas encontram o Santander em um momento de transformação no mercado brasileiro. A matriz está em processo de Oferta Pública de Aquisição (OPA) das ações da subsidiária brasileira na B3, que deve ser concluído no ano que vem. Logo depois do balanço da matriz, os executivos globais da companhia haviam sinalizado expectativa por melhora nos negócios brasileiros, em parte porque o Santander já não é tão exposto às variações da Selic quanto antes. “Há seis meses, nossa sensibilidade era de € 60 milhões a € 70 milhões para cada variação de 100 pontos-base (1 ponto porcentual) na taxa de juros. Hoje, esse valor caiu pela metade”, disse o CFO da matriz, Jose Antonio Alvarez.
O analista do BB Investimentos, Rafael Reis, achou o balanço “misto e ainda pouco inspirador”, em meio à queda anual do lucro e da rentabilidade. “O Santander continua executando bem algumas das variáveis sob seu controle, mas isso ainda não se traduz em crescimento consistente da rentabilidade”, comenta, em relatório. Para ele, a mudança de mix da carteira de crédito para um risco menor, embora possa contribuir para uma carteira mais resiliente, continua cobrando seu preço sobre as receitas.