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Influenciadores de notícias impactam a mídia tradicional

Por Caio Fochetto

Victoria Derbyshire, jornalista da BBC, já acumula mais de meio milhão de seguidores no TikTok. Na plataforma, produz vídeos quase diariamente sobre notícias de última hora, em um movimento que, para o pesquisador australiano Edward Hurcombe, vai além do simples uso das redes sociais. E Victoria não é a única jornalista a utilizar as plataformas sociais para ampliar sua presença junto ao público.

Aqui no Brasil, jornalistas como Mari Palma, apresentadora da CNN, também marcam presença na mesma rede. Segundo Mari, seus perfis se transformaram em um espaço de conexão com o internauta depois que saiu dos bastidores e começou a aparecer na TV. “As pessoas começaram a me seguir e as minhas redes se transformaram em um espaço de conexão com aquele público que eu estava conhecendo.” A partir daí, a presença digital se tornou parte de seu trabalho, sem que ela abrisse mão da própria identidade.

Mari Palma, jornalista e apresentadora Foto: Hadrien Raitani

Já a jornalista e comunicadora Cecilia Flesch, depois de criar seu próprio canal, passou a ter autonomia sobre sua presença digital. “Acredito que estar nas redes sociais é algo fundamental para todo jornalista e comunicador atualmente no mercado de trabalho”, disse em entrevista por e-mail.

Cecilia Flesch, jornalista e apresentadora Foto: Divulgação

O pesquisador Edward Hurcombe, autor do estudo Conceitualizando Newsfluencers (tradução livre), observa que jornalistas vêm incorporando práticas próprias dos influenciadores há algum tempo. “Temos jornalistas complementando sua renda com suas próprias newsletters ou desenvolvendo comunidades de fãs online no Instagram, no X ou no Bluesky”, comentou em entrevista por email.

Cecília reforça que essa presença nas plataformas não se resume à construção de uma audiência. As redes sociais também são ferramentas de trabalho jornalístico, servindo como fonte de informação e pesquisa, e como forma de acompanhar a repercussão dos acontecimentos.

Hurcombe destaca ainda a evolução dos blogueiros e dos chamados jornalistas cidadãos, e vê na atualidade um ambiente mais maduro. “As plataformas são mais poderosas e existem modelos de negócio estabelecidos”, completa, em referência ao ambiente online no qual essas figuras anteriores atuavam.

Para o pesquisador, as fronteiras que diferenciam um newsfluencer de um jornalista podem ser nebulosas. Os papéis de influenciadores e jornalistas vêm se cruzando há algum tempo, mas a distinção aparece quando práticas próprias dos influenciadores passam a fazer parte do trabalho jornalístico. Entre elas está a produção de conteúdo com o objetivo de construir e monetizar audiências online.

Linguagem acessível a todos os públicos

A busca por uma linguagem menos formal também aparece entre os próprios jornalistas. Cecilia diz procurar canais que promovam debates e análises de forma leve, com uma linguagem mais informal e participação da audiência. “O jornalismo que é sério, mas não se leva tão a sério, é o tipo que busco.”

Essa busca por novos formatos também aparece na experiência de Mari Palma. Para ela, os criadores que experimentam e se desafiam constantemente conseguem manter a atenção do público, um dos principais desafios de quem produz conteúdo atualmente. “Eu me alimento da criatividade dessas pessoas”, comenta.

O pesquisador Vasco Avides Moreira, um dos autores do estudo Como os adolescentes preferem seus newsfluencers nas redes sociais (tradução livre), acredita que as organizações jornalísticas podem aprender com algumas das estratégias dos news creators, particularmente “na forma como utilizam a criatividade, a linguagem e os formatos das plataformas para captar atenção e promover compreensão”. Para ele, o desafio consiste em adaptar essas estratégias sem abdicar do rigor e dos princípios fundamentais do jornalismo.

“Deve existir um esforço por parte das organizações em tentarem criar conteúdos apelativos e desconstruídos. As organizações jornalísticas precisam investir em equipes e estratégias dedicadas à produção de conteúdos para audiências jovens”, contou em entrevista por e-mail.

Construção da credibilidade

Mas o que diferencia a forma como os criadores de conteúdo constroem sua credibilidade nas redes sociais? Para Moreira, a principal diferença está na origem dessa confiança. Enquanto nos meios jornalísticos tradicionais ela está muitas vezes associada à reputação institucional da organização, os newsfluencers tendem a construí-la a partir da própria identidade e da percepção de autenticidade que geram junto às suas comunidades.

Essa diferença de linguagem e de relação com o público não significa que os newsfluencers estejam substituindo os meios tradicionais. “O que a investigação sugere é que muitos jovens continuam a valorizar informação credível e de qualidade, mas procuram formas de comunicação mais próximas das lógicas das plataformas digitais”, explicou.

Ainda que os newsfluencers não estejam simplesmente substituindo os meios tradicionais, alguns destes parecem já estar se adaptando a essa nova realidade. Segundo Hurcombe, grandes empresas de mídia estão criando estúdios de creators para atraí-los para suas marcas, como o CNN Creators e o BBC Creator Lab. Para ele, isso mostra que as empresas de mídia estão tentando criar seus próprios criadores “internos”, na tentativa de aproveitar o apelo dos newsfluencers.

Além disso, os tipos de conteúdo que grandes empresas de notícias produzem para plataformas como TikTok e Instagram frequentemente se parecem com conteúdo de newsfluencers. Na Austrália, de onde é Hurcombe, empresas de mídia como ABC News e Guardian Australia produzem conteúdos em formato de explicação para essas plataformas, muitas vezes com um tom “autêntico”, colorido, informal e amigável aos algoritmos.

Diferentes linguagens para diferentes canais

Mari Palma também destaca o perfil do Washington Post no TikTok, que, segundo ela, sabe aproveitar a linguagem e os formatos da plataforma para divulgar informações e notícias relevantes.

Vasco, por sua vez,falou sobre as diferenças entre o conteúdo produzido pelos influenciadores de notícias e pela imprensa tradicional, especialmente em relação à linguagem e à proximidade, à interação e à capacidade de explicar temas complexos.

“Mais do que ocuparem um vazio informativo, estão muitas vezes a ocupar um vazio relacional. É precisamente por isso que considero que os newsfluencers devem ser vistos não apenas como concorrentes dos meios tradicionais, mas também como um sinal de que o jornalismo precisa repensar a forma como se relaciona com as audiências jovens.”

Os dois pesquisadores também apontam desafios para a relação entre mídia tradicional, criadores e público. Para Hurcombe, o desafio está no fato de que talvez os newsfluencers sejam populares justamente por sua “independência” e “autenticidade”, características que podem ser difíceis de manter quando se trabalha para uma empresa de mídia.

A experiência de Cecilia Flesch ajuda a ilustrar essa questão. Segundo a jornalista, enquanto trabalhava na mídia tradicional, não tinha a mesma autonomia que passou a ter depois de criar seu próprio canal.

Já a trajetória de Mari Palma mostra que essa relação não é necessariamente a mesma para todos. Embora seja apresentadora da CNN e compartilhe sua presença digital com as redes do veículo, ela afirma ter liberdade para criar e se posicionar da maneira que considera adequada.

Para Vasco, o desafio será compreender como estas diferentes formas de produção e circulação de informação podem coexistir e contribuir para uma sociedade mais informada.

Em nosso próximo e último artigo, descubra conosco as barreiras éticas que os newsfluencers podem enfrentar e como a lógica das plataformas e seus algoritmos pode afetar sua saúde mental.

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