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Dívidas de grandes empresas que pediram recuperação nos últimos 2 anos superam R$ 160 bilhões

Mais uma gigante atolada em dívidas

Com dívidas de R$ 54 bilhões, Braskem irá pedir recuperação extrajudicial.

Nos últimos dois anos, empresas brasileiras como Braskem e Raízen acumularam dívidas superiores a R$ 160 bilhões, levando a pedidos de recuperação judicial e extrajudicial. A Braskem, com R$ 54 bilhões em dívidas, enfrenta dificuldades financeiras e pressões para que a Petrobras, sua acionista, intervenha. Claudio Damasceno, da RGF Bizdoc, destaca que a flexibilização da legislação em 2020 impulsionou esses pedidos, mas não prevê uma crise sistêmica, apesar do impacto econômico e social.

As gigantes brasileiras que pediram recuperação judicial e extrajudicial nos últimos dois anos têm dívidas somadas superiores a R$ 160 bilhões. O pedido de recuperação extrajudicial da Braskem, com endividamento total de R$ 54 bilhões, aprovado pelo conselho nesta segunda-feira, 24, tornou-se o segundo maior do período, atrás apenas de Raízen (com R$ 65 bilhões, também em recuperação extrajudicial).

Fazem parte da lista ainda o grupo varejista Casas Bahia (R$ 17 bilhões) e a empresa de gestão ambiental Ambipar (R$ 11 bilhões), com recuperações judiciais (sem acordo com credores e disputa na Justiça). O também varejista Grupo Pão de Açúcar, a empresa de saúde Oncoclínicas e a distribuidora Agrogalaxy apelaram à Justiça com dívidas de R$ 5 bilhões cada (veja tabela abaixo).

Braskem teve seu pedido de recuperação extrajudicial autorizado pelo conselho Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Há casos bastante diferentes no balaio dos maiores pedidos de recuperação. Todas, porém, se afundaram em dificuldades após movimentos equivocados de seus gestores. “O juro alto é uma boa desculpa, mas ele atinge todo mundo”, diz Claudio Damasceno, sócio da consultoria RGF Bizdoc, especialista em reestruturação. “Todas as empresas estão na tempestade, mas alguns barcos afundam e outros, inclusive no mesmo setor, não.”

A intempérie, porém, tende a sacudir mais transatlânticos nos próximos meses. Um estudo da RGF com as mil maiores empresas em termos de faturamento do País indicou que 84 apresentam indicadores econômicos que a consultoria considera críticos. Desse total, 12 já estão em recuperação judicial e duas, em extrajudicial. “A chance dessas empresas caminharem para uma crise é muito grande”, afirma Damasceno. “Teremos mais buscas de acordos e pedidos de proteção à Justiça nos próximos meses.”

Um dos trabalhos desenvolvidos pela RGF é a curadoria independente sobre as informações financeiras das companhias para credores, conselhos de administração e seguradoras. Outro é acompanhamento desses movimentos judiciais em todo o País, por meio do Monitor RGF.

Para ele, o salto nos pedidos começou com uma atualização na legislação feita em 2020, que tornou mais flexível a adoção das recuperações judicial e extrajudicial. Entre outras mudanças, o quórum para aprovação de credores para recuperação foi reduzido e o dinheiro novo, colocado após a entrada no processo, se tornou mais protegido.

“A gente viu um crescimento acelerado nos pedidos de recuperação em 2025 e uma estabilização este ano para as empresas grandes e muito grandes”, diz ele. “Mas, para as micro, pequenas e médias, houve incremento acentuado.” Os motivos, segundo ele, é a popularização do instrumento jurídico e o fato de, entre as empresas menores, estarem companhias agrícolas. “Elas são pequenas no papel, mas seus sócios têm patrimônio gigantesco”, diz ele.

Damasceno afirma não ver risco de uma crise sistêmica com tantos pedidos de recuperação, apesar de esse movimento resultar em demissões e um certo efeito na cadeia de fornecedores. “Há uma tendência de aumento de empresas nessas condições, mas não um efeito dominó”, diz ele.

O fato de algumas recuperações extrajudiciais terem sido bem-sucedidas, como a da Light, indica a atuação coerente da gestão aos propósitos expostos aos credores, ele afirma. Porém, outras, como a da Casas Bahia, mostram que nem sempre o que foi proposto é perseguido pelos administradores.

Indicadores da Braskem são ruins há quase dois anos

No caso de Braskem, Damasceno diz que a geração de caixa não tem sido suficiente sequer para pagar os juros da dívida. O patrimônio líquido está negativo, com prejuízos sucessivos há sete trimestres. “É uma situação de insolvência agravada pelo fato de que, a partir do ano que vem, ela tem de preencher as minas de sal-gema que resultaram num acidente ambiental gravíssimo em Maceió”, diz ele. “Ou seja, a situação que é ruim, tende a piorar.”

Isso tem aumentado a pressão para que a Petrobras, acionista da Braskem com 47% do capital com direito a voto, faça um aporte na petroquímica. O pedido vem sobretudo dos bondholders (detentores de títulos de dívida no exterior). A petroleira, porém, tem recusado e preferido fornecer crédito e apoiar a reestruturação de dívidas, como aconteceu nesta segunda-fiera, 24.

De toda forma, segundo Damasceno, o crescimento dos pedidos de recuperação devem ter impacto no ânimo da população e efeitos diretos, seja no cenário eleitoral ou no socorro setorial a serem dados com recursos públicos.

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