Seja Bem Vindo - 18/04/2026 02:09

  • Home
  • Agro
  • Cientista Brasileira Coloca o Café Conilon entre as Grandes Bebidas do Mundo

Cientista Brasileira Coloca o Café Conilon entre as Grandes Bebidas do Mundo

Poucas bebidas no mundo conquistaram algo que vai além do sabor: uma linguagem própria. O vinho, desde os anos 1980, organiza seus aromas em mapas que orientam mercados inteiros. O uísque escocês transformou notas sensoriais em identidade e valor. A cerveja especial seguiu o mesmo caminho, criando vocabulários que hoje sustentam categorias inteiras de produto. E, no próprio universo do café, o arábica consolidou esse padrão ao estruturar uma referência global de qualidade. Agora, o café conilon (também chamado de robusta ou canéfora) passa a ocupar esse território.

“A roda do arábica foi criada pela Associação de Café Especial (SCA, na sigla em inglês), mas as referências são todas norte-americanas”, explica a nutricionista mineira Maísa Mancini, 36 anos, mestre e doutora em Ciência de Alimentos e pós-doutora em pós-colheita e qualidade.

“O principal problema é que, ao usar a roda do arábica para provar um canéfora, você está comparando banana com maçã. São espécies diferentes.”

A constatação não é apenas didática. Ela expõe uma falha estrutural que por décadas limitou o reconhecimento de uma das principais culturas agrícolas do Brasil. Ao avaliar o conilon com os mesmos parâmetros do arábica, o mercado não apenas confundiu espécies distintas, ele comprometeu a própria leitura de qualidade.

É a partir dessa distorção que Mancini conduz uma mudança silenciosa, mas profunda. Ao estar por trás da criação da primeira roda sensorial do mundo dedicada aos cafés canéforas, a pesquisadora não apenas organiza aromas e sabores, mas reposiciona o conilon dentro de um seleto grupo de bebidas que falam a mesma língua: a da diferenciação, da identidade e do valor.

Uma linguagem que define mercado

Getty ImagesCafé espresso sendo preparado

Rodas sensoriais não são apenas ferramentas técnicas. Elas funcionam como estruturas invisíveis que organizam cadeias inteiras de valor.

Ao estabelecer um vocabulário comum, permitem que produtores, compradores e consumidores conversem sobre qualidade e, sobretudo, precifiquem essa qualidade. Foi assim com o vinho. Com o uísque. Com o café arábica.

O conilon, até aqui, operava sem esse instrumento. E o efeito prático dessa ausência foi duradouro: características próprias da espécie foram sistematicamente classificadas como falhas.

“Notas fermentadas ou alcoólicas no arábica geralmente indicam uma fermentação indesejada. No canéfora, essas notas são desejadas e vêm de fermentações induzidas e controladas”, diz Maísa.

“O canéfora deu um salto: até cinco anos atrás, falava-se apenas em café de baixa qualidade, mas hoje os cafés conilon especiais do Espírito Santo e de Rondônia se equiparam em preço e finura ao arábica.”

Essa mudança de leitura sensorial não ficou restrita ao campo técnico. Ela começa a se refletir diretamente no comportamento da indústria e na dinâmica de mercado.

Não por acaso, empresas como Nestlé, Grupo 3 Corações e a própria Cooxupé, maior exportadora de café do mundo, passaram a investir em cafés especiais 100% conilon, voltados a um consumidor mais sensível à origem e ao perfil sensorial.

No mercado externo, o movimento segue na mesma direção. O canéfora fino passa a ser reconhecido como produto de origem única e não apenas como componente de blends com o arábica.

Em alguns momentos recentes, os preços chegaram a se aproximar dos praticados para o arábica. Mais do que um equívoco técnico, tratava-se, como resume Mancini, de um ruído econômico.

Os números acompanham a mudança

Anadolu/Getty ImagesColheita manual de café

Essa reinterpretação do conilon encontra respaldo direto nos indicadores da própria lavoura.

O Valor Bruto da Produção (VBP) da cultura saiu de R$ 8,8 bilhões em 2011 para uma estimativa de R$ 23,51 bilhões em 2026, crescimento de 244,7%, segundo o Ministério da Agricultura. No pico recente, em 2025, o valor atingiu R$ 31,56 bilhões.

No mesmo período, o café arábica avançou 115,7%. A diferença de ritmo sugere que o conilon não apenas cresce, ele muda de posição dentro da cadeia produtiva.

Essa mudança estrutural também aparece na formação de preços.

Uma análise da série histórica do Cepea, de 2020 a março de 2026, mostra uma valorização expressiva da commodity. Se em 2020 a saca de 60 quilos era negociada na casa dos R$ 300, o pico da série chegou a R$ 2.102,12, em janeiro de 2025. Atualmente, o preço tenta se sustentar acima de R$ 1.000.

A valorização, superior a 230% no período, foi impulsionada por fatores externos, especialmente a quebra de safra no Vietnã, mas também por uma mudança de comportamento dos agentes de mercado.

“O produtor vietnamita começou a segurar o café”, explica Laleska Rossi Moda, analista de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets.

“Em 2024, o preço chegou a 130/140 mil dongs por quilo (R$ 25,8 a R$ 27,8), o que equivale a até R$ 1.668 por saca. Se o preço ficava abaixo disso, ele não vendia. Tivemos uma mudança na relação entre produtor e torrefador.”

Ao mesmo tempo, houve uma inflexão na demanda. “O mercado americano aumentou significativamente a importação de robusta nos últimos anos”, afirma.

É nesse ambiente que o conilon brasileiro ganha espaço, não apenas por volume, mas por qualidade percebida.

A construção de um novo vocabulário

Getty ImagesMulher passando um café coado

Esse movimento de mercado, no entanto, não ocorre isoladamente. Ele é sustentado por uma base técnica que permite compreender e comunicar essa qualidade. A resposta veio com método.

Em parceria com a neurocientista Fabiana Carvalho, da Unicamp, Mancini estruturou uma base de dados internacional com cafés de 13 países, incluindo origens relevantes da África, Ásia e América Latina.

O resultado foi publicado em maio de 2025 na revista Nature, consolidando um novo padrão global de leitura para o canéfora. Nesse novo mapa, atributos antes marginalizados passam a ocupar posição central.

“Notas de chocolate, castanhas e caramelo são sempre positivas. E o canéfora também apresenta notas alcoólicas, como uísque e conhaque, e especiarias como cravo e anis, que são qualidades bem-vindas”, explica Maísa.

Onde a qualidade realmente começa

Se a linguagem organiza a percepção, a qualidade continua sendo construída em outra escala, a do campo.

“A qualidade é diretamente proporcional ao manejo da lavoura, colheita e pós-colheita”, afirma a química, especialista em análise sensorial de café e mestre em alimentos Camila Arcanjo, 49 anos, professora do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES).

A diferença, segundo ela, não é marginal.

“Estamos falando de uma saca que pode valer R$ 800 e outra que vale o dobro.”

Nesse intervalo estão decisões operacionais críticas: temperatura de secagem, segregação de lotes, qualidade da água.

“Se você não controla o processo, o resultado aparece na xícara.”

A sofisticação sensorial, portanto, não nasce apenas da ciência, ela depende da execução.

Do desvio ao atributo

É nesse encontro entre ciência e prática que a roda sensorial ganha força. Ao separar com precisão o que é defeito do que é característica, ela cria uma linguagem capaz de traduzir qualidade em valor econômico.

“Notas fenólicas (que lembram remédio ou iodo) ou um sabor muito adstringente (de grãos colhidos verdes) são defeitos de pós-colheita”, diz Maísa.

“Uma nota muito comum em canéforas de baixa qualidade é a de fumaça, que vem de uma secagem muito rápida em temperaturas altas, o que não é desejável para um café fino. O mapa dá respaldo ao produtor para mostrar que certos atributos são característicos da espécie e não falhas de processo.”

A mudança promovida pela ciência brasileira não está apenas na criação de uma ferramenta. Ela está na construção de uma linguagem e, com ela, de um novo lugar de mercado.

Ao entrar para o grupo de bebidas com rodas sensoriais próprias, o conilon deixa de ser definido por comparação. Passa a ser compreendido por identidade de café premium.

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

DESTAQUES

Nenhum Cadastro!

VEJA MAIS

A Receita sabe exatamente quanto você recebe no PIX. Veja como funciona o rastreamento

Curiosidades da história Seu banco conta tudo: Os bancos são obrigados por lei a informar…

Governo entrega escola modernizada e anuncia pacote de obras em mobilidade e saúde para Conde | SECOM

O Centro Integrado de Educação da cidade do Conde foi entregue mais moderno e ampliado…

Bahia amplia investimentos em políticas públicas para o campo | SECOM

No Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária, celebrado nesta sexta-feira, 17 de abril, a…