“Muitas vezes a conta não fecha. O custo é alto e o preço não acompanha”, diz o produtor gaúcho Cássio Bastos Schroder, 39 anos, de São Sepé (RS), na região central do estado, a cerca de 265 quilômetros da capital Porto Alegre, ao explicar por que decidiu reduzir em cerca de 30% a área de arroz na propriedade da família nesta safra.
Ele estava presente no evento 36ª Abertura da Colheita do Arroz e Grãos em Terras Baixas, realizado na semana passada, na sede da Embrapa Clima Temperado, no município de Capão Leão (RS), que fica na região de Pelotas.
A frase de Schroder resume o momento vivido por uma das culturas mais tradicionais da agricultura brasileira. Mesmo sendo um dos alimentos mais presentes na mesa do país, o arroz atravessa um ciclo de forte pressão econômica. Em apenas um ano, o Valor Bruto da Produção (VBP) da lavoura caiu 30,5%, recuando de R$ 20,81 bilhões em 2025 para R$ 14,47 bilhões em 2026. Este é o menor valor de toda a série histórica do Ministério da Agricultura, iniciada em 1989.
É nesse contraste entre a importância do cereal para a alimentação do país e a deterioração da rentabilidade nas lavouras que emerge o dilema do arroz brasileiro.
O cenário contrasta com momentos de forte valorização da cultura. Em 2004, por exemplo, o arroz atingiu o recorde histórico de R$ 31,58 bilhões em VBP, impulsionado por preços mais favoráveis e por uma estrutura de custos menos pressionada.
Desde então, a lavoura tem atravessado ciclos de recuperação e retração, mas o patamar atual acendeu um sinal de alerta entre produtores e entidades do setor. Essa instabilidade, na verdade, acompanha a história econômica da própria cultura.
Durante o último dia do evento em Capão Leão, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), ligada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), anunciou R$ 73,6 milhões para apoiar produtores de arroz. Mas, ao que tudo indica, não deve sanar os problemas dos produtores.
Uma cultura marcada por ciclos econômicos
A rizicultura brasileira sempre conviveu com oscilações. Em diferentes momentos, a cultura viveu períodos de valorização seguidos por fases de compressão de margens.
Entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 2000, por exemplo, o Valor Bruto da Produção variou entre R$ 15 bilhões e R$ 25 bilhões, refletindo o comportamento típico de commodities agrícolas.
O pico de 2004 representou um momento excepcional para o setor. Nos anos seguintes, o VBP voltou a oscilar, mas nunca mais retornou àquele patamar.
Nos últimos ciclos, porém, a pressão se intensificou. A combinação de custos elevados de produção, concorrência internacional e volatilidade de preços passou a afetar diretamente a rentabilidade das lavouras.
Essa realidade econômica se materializa nas decisões tomadas dentro das propriedades rurais como a da família Schroder.
A história de uma família no arroz
A trajetória da família Schroder ilustra bem esse cenário. O grupo cultiva arroz há 42 anos na região central do Rio Grande do Sul, uma das áreas mais tradicionais da rizicultura brasileira. Hoje, a propriedade opera um sistema diversificado, com soja, milho e pecuária.
Mesmo assim, o arroz continua sendo o eixo histórico do negócio.
Nesta safra, no entanto, a área plantada precisou ser reduzida. Dos 1.100 hectares cultivados no ano passado, restaram cerca de 800 hectares em 2026.
“O mercado hoje está mostrando custos muito altos e o preço comercial não está atrativo. Então tivemos de reorganizar a propriedade para buscar um equilíbrio entre custo e produção”, afirma Schroder.
A área retirada do arroz foi compensada principalmente com soja, cultura que já fazia parte do sistema produtivo da fazenda.
Esse tipo de ajuste produtivo reflete uma transformação mais ampla pela qual a rizicultura brasileira passou nas últimas décadas.
Entre tradição e incerteza
A cultura do arroz no Brasil carrega hoje uma contradição evidente. Nunca foi tão produtiva e tecnificada, mas raramente enfrentou um cenário econômico tão pressionado.
Para produtores como Cássio Schroder, a continuidade da atividade dependerá da capacidade de adaptação do setor.
“O arroz sempre fez parte da nossa história. Foi com ele que a família cresceu e construiu patrimônio”, afirma. “Por isso a gente não abandona a cultura. A gente se reorganiza.”
A transformação da rizicultura brasileira

Os dados históricos da Conab mostram que a cultura passou por uma mudança estrutural profunda ao longo das últimas quatro décadas. Saindo de uma produção dependente da água da chuva para uma produção irrigada.
Na safra 1980/1981, o Brasil cultivava 6,63 milhões de hectares de arroz e produzia cerca de 8,6 milhões de toneladas.
Naquele momento, a cultura estava distribuída por diversas regiões do País, com destaque para áreas de expansão agrícola no Centro-Oeste. Quarenta e cinco safras depois, o cenário mudou profundamente.
Na safra 2025/2026, a área plantada deve chegar a 1,6 milhão de hectares, uma redução de 76,5% em relação ao início da série histórica.
Mesmo com essa queda expressiva de área, a produção nacional se mantém elevada graças ao avanço tecnológico, principalmente no arroz irrigado do Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 70% da produção brasileira.
“Essa queda de área, contudo, poderia ser favorável para um ajuste futuro de preços”, diz Rafael Vicentini, diretor de marketing do sistema de cultivo soja da BASF Soluções para Agricultura.
“Se esse movimento se concretizar, a colheita de 2027 poderá ter uma perspectiva de preço mais ajustada às ambições do agricultor, que deveria ser, minimamente, entre R$ 70 e R$ 80 por saca para garantir um cenário econômico mais favorável”, diz Vicentini.
Essa concentração regional e o avanço da produtividade ajudam a explicar também o atual equilíbrio entre produção e consumo no país.
Oferta, demanda e o novo equilíbrio do mercado

Os dados mais recentes da Conab indicam que o mercado brasileiro de arroz entrou em uma fase de ajuste estrutural. Na safra 2024/2025, o Brasil produziu cerca de 12,3 milhões de toneladas de arroz, volume suficiente para atender a demanda interna.
O consumo nacional gira em torno de 10,3 milhões a 10,5 milhões de toneladas por ano. Embora o país ainda produza mais do que consome, a margem de segurança diminuiu ao longo das últimas décadas.
Os estoques de passagem, estimados em 1,6 milhão de toneladas, não estão como nos níveis da safra 2024/25, com 2,2 milhões de toneladas, mas pressionam para baixo os preços do produto.
Ao mesmo tempo, o Brasil passou a participar de forma mais ativa do comércio internacional do cereal, ampliando exportações, especialmente nesta safra de 2025/26, no qual são estimadas pela Conab embarques de até 2,1 milhões de toneladas.
Esse movimento também expõe o setor à concorrência direta com produtores do Mercosul, um fator que pesa diretamente na equação financeira das lavouras.
A conta que não fecha

Se a produtividade do arroz brasileiro evoluiu de forma consistente nas últimas décadas, saindo de 1,5 tonelada por hectare na safra de 1976/77 para o recorde histórico de 7,2 toneladas na safra 2024/2025, a equação econômica da lavoura ficou cada vez mais apertada.
No Rio Grande do Sul, principal polo da rizicultura nacional, o custo de produção do arroz irrigado ultrapassa R$ 16 mil por hectare, segundo estimativas do setor.
Em termos de produção, isso representa um custo próximo de R$ 95 por saca de 50 quilos. O problema é que o preço recebido pelo produtor está muito abaixo desse nível.
No início de 2026, o indicador do mercado gaúcho girava em torno de R$ 54,54 por saca, cerca de 43% abaixo do registrado no mesmo período do ano anterior.
Na prática, isso significa que em muitas propriedades o arroz está sendo vendido abaixo do custo de produção. Parte dessa pressão vem da concorrência internacional dentro do próprio Mercosul.
No Paraguai, por exemplo, o custo médio de produção gira em torno de US$ 1.600 por hectare, o equivalente a cerca de R$ 9 mil (R$ 60 a R$ 65 por saca), um pouco mais do que a metade do custo observado nas lavouras gaúchas.
Argentina e Uruguai também operam com custos inferiores aos do Brasil, ampliando a competição no mercado regional. A média do custo por saca varia entre R$ 70 a R$ 75.
Entre os fatores que encarecem a produção brasileira estão o custo da terra, a carga tributária elevada, juros mais altos e despesas com irrigação e infraestrutura.
No Rio Grande do Sul, cerca de 60% das áreas de arroz são arrendadas, o que adiciona ainda mais pressão financeira sobre a atividade.
Para Schroder, essa diferença de competitividade se tornou cada vez mais evidente.
“Os países vizinhos têm custos bem mais baixos que os nossos. Esse arroz que entra no Brasil acaba competindo diretamente com o nosso produto”, afirma.
Diante desse cenário, muitos produtores passaram a rever estratégias dentro das propriedades.
A resiliência da cultura

Mesmo diante desse cenário, poucos produtores cogitam abandonar a cultura.
O produtor Carlo Marcio Fagundes dos Santos Silva, 57 anos, que cultiva 1.100 hectares de arroz no sul do Rio Grande do Sul, diz que a atividade atravessa um dos momentos mais difíceis dos últimos anos.
“Hoje o arroz chegou ao que chamamos de fundo do poço. O custo gira em torno de 200 sacas por hectare. Quando plantamos com o arroz a R$ 52, esse valor não pagava o custo de produção.”
Ainda assim, ele acredita na capacidade de recuperação do setor.
“O arroz é resiliente. Vai ganhar um pouco mais em um ano e um pouco menos em outro. Mas sempre ajuda a pagar as contas.”
Essa resiliência também explica por que o setor busca apoio institucional para atravessar o atual ciclo de mercado.